"Quando chego à praça só lá estão os pombos, e parecem conhecer-me tão bem que o meu lugar é o único que não aparece de manhã como se tivesse nevado, perdido debaixo da caca dos pássaros. Eu acho que os pombos agradecem as migalhas que lhes junto em casa e que lhes trago todas as sextas-feiras num saco de plástico. Acho que os pombos sabem, e por isso respeitam o meu lugar, ao contrário do que se passa no sítio do mudo que engraxa sapatos. Ele está sempre a atirar-lhes pedras e tenta agarrar os mais novinhos. Diz ele que cozinhados com muito alho são óptimos para os pulmões. Eu acho que os pombos não gostam do mudo; o lugar dele aparece de manhã sempre coberto de merda branca, o que o enfurece imenso."
Luís Sepulveda, "Encontro de Amor Num País Em Guerra" - "Um Homem Que Vendia Doces No Parque"
9.11.09
14.10.09
13.10.09
Merlin's flu
Pelo menos um condão se pode atribuir à varinha da gripe H1N1: o do súbito aparecimento, nas escolas, de sabonete e de toalhas de papel nas casas de banho dos alunos. Talvez mesmo de água, nalguns casos.
8.10.09
Voltou a chuva.
Mas não veio do céu
ou do Oeste.
Voltou da minha infância.
A noite abriu-se, um trovão
comoveu-a, o estrondo
varreu as solidões,
e então
chegou a chuva
da minha infância,
primeiro
numa rajada
raivosa, depois
como a cauda
molhada
dum planeta,
a chuva
tic tac mil vezes tic
tac mil
vezes um trenó,
uma vasta pancada
de escuras pétalas
na noite,
subitamente
intensa
crivando
a folhagem
com agulhas,
outras vezes
um manto
tempestuoso
tombando
no silêncio,
a chuva,
mar do céu,
rosa fresca,
nua,
voz celeste,
violino negro,
formosura,
amo-te
desde criança,
não por seres boa,
mas pela tua beleza.
Caminhei
com os sapatos rotos
enquanto os fios
do céu escancarado
se desatavam sobre
a minha cabeça,
traziam-nos
a mim e às raízes,
as mensagens
das alturas,
o húmido oxigénio,
a liberdade do bosque.
Conheço
os teus desmandos,
o buraco
no telhado
gotejando
nos quartos
dos pobres:
ali desmascaras
a tua beleza,
és hostil
como uma
celestial
armadura,
como um punhal de vidro,
transparente,
ali
conheci-te de verdade.
No entanto,
continuei
apaixonado
por ti,
de noite
fechando os olhos
esperei que caísses
sobre o mundo,
esperei que cantasses
somente para o meu ouvido,
porque o meu coração guardava toda
a germinação terrestre
e é nele que se fundem os metais
e o trigo se levanta.
Amar-te, no entanto,
deixou-me na boca
um gosto amargo,
amargo sabor de remorso.
De noite, aqui em Santiago,
somente as povoações
de Nueva Legua
se desmoronaram,
as vivendas
cogumelo,
amontoados
fragmentos de ignomínia,
ao peso da tua cólera
desmantelaram-se,
as crianças
choravam na lama,
as camas encharcadas
dias e dias,
as cadeiras quebradas,
as mulheres,
o lume, as cozinhas,
enquanto tu, negra chuva,
inimiga,
caías desalmadamente
sobre a nossa miséria.
Eu creio
que um dia,
que marcaremos no calendário,
terão abrigo seguro,
sólido tecto,
os homens no seu sono,
todos
os adormecidos,
e quando de noite
a chuva
regressar
da minha infância
cantará nos ouvidos
doutras crianças
e alegre
será o canto
da chuva no mundo,
e trabalhadora,
proletária,
ocupadíssima,
fertilizando montes
e planícies,
dando força aos rios,
engalanando
o suave arroio
perdido na montanha,
trabalhando
no gelo
das nevadas,
correndo sobre o lombo
do gado,
engrandecendo o germe
primaveril do trigo,
lavando as amêndoas
ocultas,
trabalhando
denodadamente
e com delicadeza fugidia,
com mãos e com fios
na preparação da terra.
Chuva
passada,
ó triste
chuva
de Loncoche e Temuco,
canta,
canta,
canta sobre os telhados
e as folhas,
canta no vento frio,
canta em meu coração, na minha confiança,
no meu telhado, em minhas veias,
na minha vida,
eu não te receio,
resvala
para a terra
cantando com o teu canto
e com o meu
porque os dois temos
trabalho nas sementes
e partilhamos
o dever cantando.
Pablo Neruda
7.10.09
What is Nonsense?

"What is Nonsense? I know when you do not ask me. I know that in infancy it is as the very air we breathe; that it cheers and strengthens us in the long weary working days of manhood; and brightens and gladdens our old age. But how can I bring it within the words of a definition? If the question is pressed, i must answer it with another. What is Sense?"
Edward Strachey, in Edward Lear's "Complete Nonsense" introduction
2.10.09
Assuntos séries da minha vida IX
Verão Azul, em honra do Verão que perdura (embora este calor, no trabalho, já me esteja a incomodar um bocadinho).
30.9.09
29.9.09
24.9.09
Eu até gosto de vermelho, mas...
"Penso que a colectivização foi um erro, um fracasso. Mas não podiam confessá-lo. Para esconderem esse fracasso tiveram de recorrer a todos os meios possíveis de intimidação para desabituarem as pessoas de julgar e de pensar, para as forçar a ver o que não existia e para provar o contrário da própria evidência. E assim se explica a crueldade sem precedentes do período de terror de Iejov, a promulgação de uma constituição destinada a não ser aplicada, a concessão de eleições que não se baseavam em nenhum princípio eleitoral."
in Dr. Jivago, de Boris Leonidovich Pasternak, XVI Parte, Cap. II
23.9.09
Sabedoria
"Tem que se ter muito cuidado para não criar um desastre que dure várias gerações."
Alejandro Aravena, arquitecto chileno
22.9.09
9.9.09
8.9.09
7.9.09
4.9.09
Rentrée a pés juntos
Hoje vou sair à noite.
Para dar aulas como professor contratado, já o disse aqui, preciso de certificar, anualmente, através de análises sanguíneas, urínicas e cardíacas, seladas com a autoridade da médica de família, a minha robustez física e psíquica (não me perguntem em que partes do sangue, da urina, ou em qual das minhas oitenta pulsações por minuto conseguem perscrutar a minha saúde mental, porque eu não imagino). É exigida (com bons modos), também, certificação da situação criminal, por meio de documento competente.
Os professores dos quadros, assim que emoldurados, não precisam de atestar nenhuma destas saúdes.
Mais do que por qualquer outra razão, é por isso que eu desejo o vínculo com o Ministério da Educação. Pela garantia desta valiosa e prolongada moldura de vitalidade, lucidez e inocência.
Vou à médica. De noite, sim.
Vou-lhe pedir que me tatue um ISO9001 no ombro.
17.7.09
9.7.09
7.7.09
2.7.09
1.7.09
Curte-as!

Projecto do meu grande amigo Mário.
"Estrutura do Projecto:
A ONcine é um projecto que tem como principal objectivo dinamizar o cinema independente no Concelho de Sesimbra, através da criação de uma plataforma on-line com todos os meios e contactos para a criação de filmes independentes.
Como primeira acção de lançamento da marca ONcine, vamos realizar um Concurso/Festival de Cinema Independente no concelho de Sesimbra.
O festival decorrere nos meses de verão (Junho, Julho e Agosto) e tem a seguinte estrutura:
- De 1 de Junho a 1 de Agosto, estarão abertas as inscrições de curtas-metragens para o festival.
- No decorrer do concurso existirão diversos workshops (software de edição de vídeo, câmara e perspectivas).
-Posteriormente serão seleccionadas as melhores curtas, que serão exibidas no festival. Após a visualização de todos os filmes serão eleitas 3 películas vencedoras. Aos realizadores das curtas vencedoras serão atribuídos prémios.
- O festival decorrerá no bar Gliese, junto à praia. Conta com o apoio, entre outros, da Câmara Municipal de Sesimbra, Animotic, Motion Stripes e Interlog.
Pretendemos, nesta fase inicial do projecto, através da parceria, obter apoio na divulgação do festival. Em contrapartida poderemos divulgar o vosso site no nosso.
Cumprimentos,
Dário Rodrigues
Mário Mateus Araújo"
http://www.on-cine.com
30.6.09
Assuntos séries da minha vida I
O Homem da Atlântida
(O meu grande amigo Pedro nada assim como ninguém.)
25.6.09
Tributo
A música que as meninas da minha turma do 9.º ano coreografaram para uma festa da Escola Secundária de Viriato, em Viseu.
23.6.09
O meu contributo para a literacia, a informação e diminuição da pegada ecológica humana
De há uns tempos para cá gosto de, de vez em quando, fazer isto: comprar o jornal, ir lê-lo para um café ou restaurante e, no fim da leitura guarnecida, abandoná-lo em cima da mesa como se nunca tivesse sido meu. Sabe-me bem.
18.6.09
A ser assim...
A pirataria nos mares da Somália
"A história diz-nos que há sempre duas versões a considerar! Quem estará certo sobre este assunto?
Na verdade nunca há apenas um lado para analisar. De novo, tudo se passa na costa oriental da África, nos mares do Índico, onde também nós, portugueses, já tivemos o nosso tráfico.
O artigo foi escrito por um jornalista do The Independent, Johann Hari, e publicado no dia 15 de Abril. Quanto ao Marcus Rediker é um conhecido historiador americano, originário do Kentucky, e actual director do departamento de história da Universidade de Pittsburg. Ele é bastante conhecido, e tido por um dos maiores conhecedores da Pirataria e do Atlântico. Vários livros dele foram traduzidos em diferentes línguas, inclusive em português.
Estão-nos mentindo sobre os piratas
Quem imaginaria que em 2009, os governos do mundo declarariam uma nova Guerra aos Piratas? No instante em que você lê esse artigo, a Marinha Real Inglesa - e navios de mais 12 nações, dos EUA à China - navega rumo aos mares da Somália, para capturar homens que ainda vemos como vilões de pantomima, com papagaio no ombro. Mais algumas horas e estarão bombardeando navios e, em seguida, perseguirão os piratas em terra, na terra de um dos países mais miseráveis do planeta. Por trás dessa estranha história de fantasia, há um escândalo muito real e jamais contado. Os miseráveis que os governos "ocidentais" estão rotulando como "uma das maiores ameaças do nosso tempo" têm uma história extraordinária a contar - e, se não têm toda a razão, têm pelo menos muita razão.
Os piratas jamais foram exactamente o que pensamos que fossem. Na "era de ouro dos piratas" - de 1650 a 1730 - o governo britânico criou, como recurso de propaganda, a imagem do pirata selvagem, sem propósito, o Barba Azul que ainda sobrevive. Muita gente sempre soube disso e muitos sempre suspeitaram da farsa: afinal, os piratas foram muitas vezes salvos das galés, nos braços de multidões que os defendiam e apoiavam. Porquê? O que os pobres sabiam, que nunca soubemos? O que viam, que nós não vemos? Em seu livro Villans Of All Nations, o historiador Marcus Rediker começa a revelar segredos muito importantes.
Se você fosse mercador ou marinheiro empregado nos navios mercantes naqueles dias - se vivesse nas docas do East End de Londres, se fosse jovem e vivesse faminto - você fatalmente acabaria embarcado num inferno flutuante, de grandes velas. Teria de trabalhar sem descanso, sempre faminto e sem dormir. E, se rebelasse, lá estavam o todo-poderoso comandante e seu chicote [ing. the Cat O' Nine Tails, lit. "o Gato de nove rabos"]. Se você insistisse, era a prancha e os tubarões. E ao final de meses ou anos dessa vida, seu salário quase sempre lhe era roubado.
Os piratas foram os primeiros que se rebelaram contra esse mundo. Amotinavam-se nos navios e acabaram por criar um modo diferente de trabalhar nos mares do mundo. com os motins, conseguiam apropriar-se dos navios; depois, os piratas elegiam seus capitães e comandantes, e todas as decisões eram tomadas colectivamente; e aboliram a tortura. Os butins eram partilhados entre todos, solução que, nas palavras, foi "um dos planos mais igualitários para distribuição de recursos que havia em todo o mundo, no século 18".
Acolhiam a bordo, como iguais, muitos escravos africanos foragidos. Os piratas mostraram "muito claramente - e muito subversivamente - que os navios não precisavam ser comandados com opressão e brutalidade, como fazia a Marinha Real Inglesa." Por isso eram vistos como heróis românticos, embora sempre fossem ladrões improdutivos.
As palavras de um pirata cuja voz perde-se no tempo, um jovem inglês chamado William Scott, volta a ecoar hoje, nessa pirataria new age que está em todas as televisões e jornais do planeta. Pouco antes de ser enforcado em Charleston, Carolina do Sul, Scott disse: " O que fiz, fiz para não morrer. Não encontrei outra saída, além da pirataria, para sobreviver".
O governo da Somália entrou em colapso em 1991. Nove milhões de somalianos passam fome desde então. E todos e tudo o que há de pior no mundo ocidental rapidamente viu, nessa desgraça, a oportunidade para assaltar o país e roubar de lá o que houvesse. Ao mesmo tempo, viram nos mares da Somália o local ideal onde jogar todo o lixo nuclear do planeta.
Exactamente isso: lixo atómico. Mal o governo se desfez (e os ricos partiram), começaram a aparecer misteriosos navios europeus no litoral da Somália, que jogavam ao mar contentores e barris enormes. A população do litoral começou a adoecer. No começo, erupções de pele, náuseas e bebés malformados. Então, com o tsunami de 2005, centenas de barris enferrujados e com vazamentos apareceram em diferentes pontos do litoral. Muita gente apresentou sintomas de contaminação por radiação e houve 300 mortes.
Quem conta é Ahmedou Ould-Abdallah, enviado da ONU à Somália: "Alguém está jogando lixo atómico no litoral da Somália. E chumbo e metais pesados, cádmio, mercúrio, encontram-se praticamente todos." Parte do que se pode rastrear leva directamente a hospitais e indústrias europeias que, ao que tudo indica, entrega os resíduos tóxicos à Máfia, que se encarrega de "descarrega-los" e cobra barato. Quando perguntei a Ould-Abdallah o que os governos europeus estariam fazendo para combater esse "negócio", ele suspirou: "Nada. Não há nem descontaminação, nem compensação nem prevenção".
Ao mesmo tempo, outros navios europeus vivem de pilhar os mares da Somália, atacando uma das suas principais riquezas: pescado. A Europa já destruiu seus stocks naturais de pescado pela super-exploração e, agora está super-explorando os mares da Somália. A cada ano, saem de lá mais de 300 milhões de Atum, camarão e lagosta; são roubados anualmente, por pesqueiros ilegais. Os pescadores locais tradicionais passam fome.
Mohammed Hussein, pescador que vive em Marka, cidade a 100 Kilómetros ao sul de Mogadishu, declarou à Agência Reuters: "Se nada for feito, acabarão com todo o pescado de todo o litoral da Somália".
Esse é o contexto do qual nasceram os "piratas" somalianos. São pescadores somalianos, que capturam barcos, como tentativa de assustar e dissuadir os grandes pesqueiros; ou, pelo menos como meio de extrair deles alguma espécie de compensação.
Os somalianos chamam-se "Guarda Costeira Voluntária da Somália".. A maioria dos somalianos os conhecem sob essa designação. [Matéria importante sobre isso, em The Armada is not a solution".] Pesquisa divulgada pelo site somaliano independente WardheerNews informa que 70% dos somalianos aprovam firmemente a pirataria como forma de defesa nacional".
Claro que nada justifica a prática de fazer reféns. Claro, também, que há gangsters misturados nessa luta - por exemplo, os que assaltaram os carregamentos de comida do World Food Programme. Mas em entrevista por telefone, um dos lideres dos piratas, Segule Ali disse: "Não somos bandidos do mar. Bandidos do mar são os pesqueiros clandestinos que saqueiam nosso peixe." William Scott entenderia perfeitamente.
Porque os europeus supõem que os somalianos deveriam deixer-se matar de fome passivamente pelas praias, afogados no lixo tóxico europeu, e assistir passivamente os pesqueiros europeus (entre outros) que pescam o peixe que, depois, os europeus comem elegantemente nos restaurantes de Londres, Paris ou Roma? A Europa nada fez, por muito tempo. Mas quando alguns pescadores reagiram e intrometeram-se no caminho pelo qual passa 20% do petróleo do mundo... imediatamente a Europa despachou para lá os seus navios de guerra.
A história da guerra contra a pirataria em 2009 está muito mais claramente narrada por outro pirata, que viveu e morreu no século 4 aC. Foi preso e levado à presença de Alexandre, o Grande, que lhe perguntou "o que pretendia, fazendo-se de senhor dos mares." O pirata riu e respondeu: "O mesmo que você, fazendo-se senhor das terras; mas, porque meu navio é pequeno, sou chamado ladrão; e você, que comanda uma grande frota, é chamado de imperador. "Hoje, outra vez, a grande frota europeia lança-se ao mar, rumo à Somália - mas... quem é o ladrão?"
Recebido por email.
10.6.09
Eu, catastrofista
Não vos parece (diz ele, convicto de que alguém lê o seu pobre blogue) que todos estamos excessiva e confiantemente dependentes da energia eléctrica? A pensar muito por baixo, por exemplo, o que seria deste blogue num possível day after complete shut down?
4.6.09
Como é que gostaria de ser recordado, Sr. Manuel de Oliveira?
Ainda agora, na RTP, em entrevista com Judite de Sousa (a, para mim, assustadora Judite de Sousa).
"Com a mesma melancolia com que recordo todos aqueles (amigos, etc) que foram desaparecendo.", respondeu o senhor.
Certa vez, há cerca de dez anos, respondi a uma amiga, já não sei a propósito de quê, que gostaria de ser recordado com pena. Em tempo algum me compararei a Manuel de Oliveira, mas, ao ouvi-lo dizer estas palavras, um sentimento de alegria e, confesso, de triunfo, me percorreu as veias e a alma. Era exactamente aquilo que eu queria dizer quando respondi àquela amiga. A sua reacção, no entanto, na altura, deixou-me a modos que traumatizado (daí lembrar-me...). "PENA!!! Pena é um sentimento horrível!!!" Mais coisa menos coisa.
Com a sensação imediata de ter sido incompreendido, fiquei, ao mesmo tempo, e apesar disso, a pensar até que ponto ela não teria razão, a tentar perceber se realmente não seria terrível aquele meu almejo. Com a agravante de que a dita pareceu perder-me o respeito, sendo, ainda por cima, atraente, com todo o peso que isso traz ao ego masculino.
Não sou nada de cantar vitória, de esfregar o erro do adversário nas suas fuças, mas, bolas!, eu sabia que tinha razão! Não era é lá muito confiante...
À parte: ou a Sr.ª Judite de Sousa, na sua gentileza e cortesia, vociferava a entrevista por demonstração de atenção para com a (possível) surdez do entrevistado, ou, então, ela própria tem dificuldade em ouvir a sua própria voz; aquilo já me estava a causar espécie e a meter pena (pena!); será que as suas entrevistas são feitas, por inexistência de outro espaço, em estúdios contíguos a deficientemente isolados outros de gravação de Trash Metal?!
26.5.09
25.5.09
A revolta do post anterior (mais pelo desrespeito que foi receber uma convocatória em cima da hora para uma reunião de classificadores, sem se querer saber se há outros compromissos já marcados) transformou-se em algum sentimento de culpa quando, finda a reunião de classificadores, e já na fila para receber os malditos envelopes com as provas a corrigir... err... classificar, me dizem que sou suplente. Apenas entrarei em campo por impedimento ou lesão de algum titular.
Explico a culpa: não é bonito estar rodeado de pessoas que estão a levantar trabalho extra e que não se sabe muito bem para que serve e sermos aquele que, em princípio, não vai ter esse trabalho. Mais quando a colega e amiga que esteve todo aquele tempo connosco, e que vive em Portalegre, e que viaja todas as semanas dali para Algés, e que tem três flhos pequenos, recebeu trabalho e nós não.
Disponibilizei-me para ajudar, mas ainda assim.
É claro que me sinto aliviado por não ter cinquenta provas com critérios de correcção kafkianos à minha responsabilidade, não pensem que sou assim tão santinho.
21.5.09
Dobrado sobre mim mesmo, olhos fechados, expressão grave e solene.
Estou profundamente agradecido pelo reconhecimento de competências com que hoje fui agraciado. Lisonjeia-me a concessão de tão nobre tarefa. Leva-la-ei a cabo com brio, esmero e dupla dedicação. Será gracioso o meu trabalho. Basta-me o privilégio como recompensa.
Vou ser classificador de Provas de Aferição.
Nem tudo é irónico.
14.5.09
Vão operar-me ao septo nasal
"...entraram no quarto três médicos. Já tinha notado que os médicos que falham na prática da medicina têm a tendência para procurar a companhia e o auxílio de outros em conferências médicas. Um médico incapaz de nos tirar competentemente o apêndice recomendar-nos-á um médico que será capaz de nos tirar as amígdalas com sucesso. Estes três eram desses."
Hemingway, em O Adeus às Armas
Há esperança. O médico, com quem não simpatizei, e que no fim da consulta me deixou desconfiado com um "...você agora é que sabe se quer ser operado...", não chamou ninguém para conferenciar sobre a minha problemática nasal.
12.5.09
11.5.09
Sublinhado
"É apenas a tentar explicá-la aos outros que compreendemos se a ideia que temos na mente é justa ou pelo menos se podia ser formulada."
Umberto Eco
"Para um autêntico escritor, cada livro deve ser um novo começo em que se procura algo que está para além do seu alcance. Ele deve sempre procurar algo que nunca foi feito, ou que os outros tentaram e falharam. Então, uma vez por outra, e se tiver sorte, ele será bem sucedido."
Hemingway
29.4.09
Half a gaffe
Vejo, na televisão, por acaso de zapping, aquelas que foram consideradas as dez (maiores?) gaffes de Barack Obama nos seus primeiros cem dias de governação. A não ser no caso em que compara a sua performance no bowling a um desempenho paralímpico (ainda assim, inocente e espontânea comparação, do meu ponto de vista), onde estão as gaffes? Verifiquem e contestem-me. Eu apenas vejo espontaneidade e humanidade. Ah, do outro lado vejo luta por audiências.
(o título parece aquilo dos mafagafinhos)
28.4.09
23.4.09
21.4.09
Conversas
Mais do que ninguém, eu não sou imune à ingenuidade, mas, da entrevista que ainda agora acabou na RTP1 concluo pelo menos uma coisa. Que há um (grande) ponto a favor de José Sócrates: o saber dialogar honestamente. Judite de Sousa ainda não percebeu (ou não lhe interessa perceber) que o valor do diálogo não está em descobrir de que lado está a razão nem no perseguir de uma vitória. José Alberto Carvalho parece já ter dado conta.
17.4.09
Aqui não há favas contadas.
Entrar numa aula partindo do princípio de que os alunos se vão portar bem (e que relativo é o conceito de bom comportamento...) é, no mínimo, uma ingenuidade. Na minha opinião, é partir para a derrota. É como sair de manhã para o trabalho tendo que, obrigatoriamente, percorrer uma estrada habitualmente congestionada estando convencidos de que, hoje sim, hoje é que vai ser, não vai haver filas nem stresse, vai ser um aliviado ver se te avias. O que é que acontece? À primeira contrariedade perdemos a paciência. Numa aula é igual. Até em turmas "boas" os imprevisttos acontecem e é bom estar a contar com eles, encará-los como normais, como previstos. Ninguém tem prazer, é claro, em alunos que constantemente perturbam e não deixam que as coisas fluam, mas tenho aprendido que o stresse é menor quando se tem em conta a possibilidade (quase sempre a certeza) de que algo interromperá o "normal" curso das coisas.
Já achar que crianças, para mais em grupo, irão estar uma manhã inteira com atenção sossegada é muito mais do que ingenuidade. É ignorância. É não conhecê-las. É, se calhar, não admirá-las o suficiente.
Isto não quer dizer que a minha paciência não tem limites.
16.4.09
Ele há coisas...
Aconteceu-me hoje uma coisa que considero curiosa. Uma colega que faltou deixou instruções expressas para que, na minha hora de substituição, fosse eu a substituí-la. Perguntando-me porquê, encarei a coisa como um elogio e fiz-lhe a vontade.
Não leccionamos a mesma disciplina.
P.S.: parece que o meu ego é bastante massajável. Uma fraqueza, suponho.
Não haverá aqui uma lei qualquer...?
Uma coisa me espanta: que este blogue se actualize mais quando menos tempo tenho.
13.4.09
Como é que pode ser?!
As notícias dizem que há crianças das escolas do concelho de Sintra que passam fome e que muitas vezes é a escola que as alimenta. A Sr.ª Ministra da Educação diz que há alarmismo (nas notícias). Não faço ideia se já deu aulas a sério. Se já o fez a crianças necessitadas. Se tem sequer ideia real do que é o ensino. Se já lhe calhou dez meninos (não exagero) declararem a meio de aula de fim de tarde que não tinham almoçado. Se a maior parte dos mesmos lhe disse, quando enviados ao bar da escola, que não tinham dinheiro. Já? A mim já, Sr.ª Ministra! Onde? No concelho de Sintra! Quando? Há menos de um ano! No Cacém, Sr.ª Ministra! E o Cacém é grande e pobre e é apenas uma pequena parte do concelho de Sintra!
Não é um privilégio ter tido alunos assim, com fome, alguns deles bons alunos apesar de tudo, mas serve, agora, para lhe dizer que não há alarmismo, há, antes, uma realidade alarmante! E alarmes existem para que se tomem medidas!
Convidados da segunda (de a a z)
"alforreca: uma dançarina. para beijinhos usa ardores. para cor optou por transparência. aprecia boleiar-se na correnteza.
aranha: em complicada teia, bicha muita simples. contentada com qualquer refeição avindoura, seja um mosquito distraído, um grão de pólen, ou o grandioso infinito. contém inesgotável reservatório de saliva."
Ondjaki
30.3.09
Liberdade
A propósito do que se teria passado na sala G2 do pavilhão de Educação Física na sexta-feira de manhã, a saber, entre outras coisas, um pequeno sketch sobre a Criação do mundo em sete sete dias (sim, sete, ao sétimo foi criado o descanso) conversava-se na sala de professores. Um deles comenta "...não sei como podem deixar dizer uma coisa dessas numa escola..." (qualquer coisa assim). Um outro, que nem sempre sabe estar calado (raramente), e que trabalhava nas imediações, devolve "É a liberdade, amigo...", num tom que pretendia ser convincente, mas amistoso e brincalhão. A reacção foi de surpresa. E, parece-me, de alguma animosidade. Como se eu, sim eu, quem havia de ser o desbocado, não tivesse o direito de contrapor a minha opinião, ainda mais sobre assunto tão ignóbil para mentes académicas. Nem um nem outro nos alongámos muito na discussão (conversa), sabendo tacitamente, talvez por experiência, que as conclusões permaneceriam as mesmas e as de cada um com cada qual. Talvez o tom ou a oportunidade não tenham sido os melhores. A sensação com que fiquei de que possa ter ofendido não me agrada (nunca me agrada), tratando-se, ainda por cima, de alguém divertido e simpático. Por outro lado, apenas contrapus a minha opinião, o que, em si só, é uma liberdade não passível de causar ofensa. Assim me parece. Custa-me aceitar este agir e falar pensando que todos à volta dificilmente terão opinião diferente. Que todos serão, à partida, mainstream. Ainda assim, talvez devesse ter ficado calado. De bom, fiquei a saber que há mais na escola com a minha convicção. "Mas amigos na mesma...", tentei apaziguar. "Claro!", respondeu ele. E eu sei, também por experiência, que de grandes discussões e divergências podem sair ainda maiores amigos.
Convidados da segunda (de a a z)
A
"abelha: de tanto ouvir zumbido ficou surda. vive de cheirar flores e praticar voolêncios. também sabe voar para trás. no picar residem seus derradeiros orgasmos."
Ondjaki, bichos convidados (de a a z)





