Assuntos séries da minha vida IV
"Raio Azul" (evidente, eu sei, mas era o título em Portugal)
"É apenas a tentar explicá-la aos outros que compreendemos se a ideia que temos na mente é justa ou pelo menos se podia ser formulada." Umberto Eco

Projecto do meu grande amigo Mário.
"Estrutura do Projecto:
A ONcine é um projecto que tem como principal objectivo dinamizar o cinema independente no Concelho de Sesimbra, através da criação de uma plataforma on-line com todos os meios e contactos para a criação de filmes independentes.
Como primeira acção de lançamento da marca ONcine, vamos realizar um Concurso/Festival de Cinema Independente no concelho de Sesimbra.
O festival decorrere nos meses de verão (Junho, Julho e Agosto) e tem a seguinte estrutura:
- De 1 de Junho a 1 de Agosto, estarão abertas as inscrições de curtas-metragens para o festival.
- No decorrer do concurso existirão diversos workshops (software de edição de vídeo, câmara e perspectivas).
-Posteriormente serão seleccionadas as melhores curtas, que serão exibidas no festival. Após a visualização de todos os filmes serão eleitas 3 películas vencedoras. Aos realizadores das curtas vencedoras serão atribuídos prémios.
- O festival decorrerá no bar Gliese, junto à praia. Conta com o apoio, entre outros, da Câmara Municipal de Sesimbra, Animotic, Motion Stripes e Interlog.
Pretendemos, nesta fase inicial do projecto, através da parceria, obter apoio na divulgação do festival. Em contrapartida poderemos divulgar o vosso site no nosso.
Cumprimentos,
Dário Rodrigues
Mário Mateus Araújo"
http://www.on-cine.com
O Homem da Atlântida
(O meu grande amigo Pedro nada assim como ninguém.)
A música que as meninas da minha turma do 9.º ano coreografaram para uma festa da Escola Secundária de Viriato, em Viseu.
De há uns tempos para cá gosto de, de vez em quando, fazer isto: comprar o jornal, ir lê-lo para um café ou restaurante e, no fim da leitura guarnecida, abandoná-lo em cima da mesa como se nunca tivesse sido meu. Sabe-me bem.
A pirataria nos mares da Somália
"A história diz-nos que há sempre duas versões a considerar! Quem estará certo sobre este assunto?
Na verdade nunca há apenas um lado para analisar. De novo, tudo se passa na costa oriental da África, nos mares do Índico, onde também nós, portugueses, já tivemos o nosso tráfico.
O artigo foi escrito por um jornalista do The Independent, Johann Hari, e publicado no dia 15 de Abril. Quanto ao Marcus Rediker é um conhecido historiador americano, originário do Kentucky, e actual director do departamento de história da Universidade de Pittsburg. Ele é bastante conhecido, e tido por um dos maiores conhecedores da Pirataria e do Atlântico. Vários livros dele foram traduzidos em diferentes línguas, inclusive em português.
Estão-nos mentindo sobre os piratas
Quem imaginaria que em 2009, os governos do mundo declarariam uma nova Guerra aos Piratas? No instante em que você lê esse artigo, a Marinha Real Inglesa - e navios de mais 12 nações, dos EUA à China - navega rumo aos mares da Somália, para capturar homens que ainda vemos como vilões de pantomima, com papagaio no ombro. Mais algumas horas e estarão bombardeando navios e, em seguida, perseguirão os piratas em terra, na terra de um dos países mais miseráveis do planeta. Por trás dessa estranha história de fantasia, há um escândalo muito real e jamais contado. Os miseráveis que os governos "ocidentais" estão rotulando como "uma das maiores ameaças do nosso tempo" têm uma história extraordinária a contar - e, se não têm toda a razão, têm pelo menos muita razão.
Os piratas jamais foram exactamente o que pensamos que fossem. Na "era de ouro dos piratas" - de 1650 a 1730 - o governo britânico criou, como recurso de propaganda, a imagem do pirata selvagem, sem propósito, o Barba Azul que ainda sobrevive. Muita gente sempre soube disso e muitos sempre suspeitaram da farsa: afinal, os piratas foram muitas vezes salvos das galés, nos braços de multidões que os defendiam e apoiavam. Porquê? O que os pobres sabiam, que nunca soubemos? O que viam, que nós não vemos? Em seu livro Villans Of All Nations, o historiador Marcus Rediker começa a revelar segredos muito importantes.
Se você fosse mercador ou marinheiro empregado nos navios mercantes naqueles dias - se vivesse nas docas do East End de Londres, se fosse jovem e vivesse faminto - você fatalmente acabaria embarcado num inferno flutuante, de grandes velas. Teria de trabalhar sem descanso, sempre faminto e sem dormir. E, se rebelasse, lá estavam o todo-poderoso comandante e seu chicote [ing. the Cat O' Nine Tails, lit. "o Gato de nove rabos"]. Se você insistisse, era a prancha e os tubarões. E ao final de meses ou anos dessa vida, seu salário quase sempre lhe era roubado.
Os piratas foram os primeiros que se rebelaram contra esse mundo. Amotinavam-se nos navios e acabaram por criar um modo diferente de trabalhar nos mares do mundo. com os motins, conseguiam apropriar-se dos navios; depois, os piratas elegiam seus capitães e comandantes, e todas as decisões eram tomadas colectivamente; e aboliram a tortura. Os butins eram partilhados entre todos, solução que, nas palavras, foi "um dos planos mais igualitários para distribuição de recursos que havia em todo o mundo, no século 18".
Acolhiam a bordo, como iguais, muitos escravos africanos foragidos. Os piratas mostraram "muito claramente - e muito subversivamente - que os navios não precisavam ser comandados com opressão e brutalidade, como fazia a Marinha Real Inglesa." Por isso eram vistos como heróis românticos, embora sempre fossem ladrões improdutivos.
As palavras de um pirata cuja voz perde-se no tempo, um jovem inglês chamado William Scott, volta a ecoar hoje, nessa pirataria new age que está em todas as televisões e jornais do planeta. Pouco antes de ser enforcado em Charleston, Carolina do Sul, Scott disse: " O que fiz, fiz para não morrer. Não encontrei outra saída, além da pirataria, para sobreviver".
O governo da Somália entrou em colapso em 1991. Nove milhões de somalianos passam fome desde então. E todos e tudo o que há de pior no mundo ocidental rapidamente viu, nessa desgraça, a oportunidade para assaltar o país e roubar de lá o que houvesse. Ao mesmo tempo, viram nos mares da Somália o local ideal onde jogar todo o lixo nuclear do planeta.
Exactamente isso: lixo atómico. Mal o governo se desfez (e os ricos partiram), começaram a aparecer misteriosos navios europeus no litoral da Somália, que jogavam ao mar contentores e barris enormes. A população do litoral começou a adoecer. No começo, erupções de pele, náuseas e bebés malformados. Então, com o tsunami de 2005, centenas de barris enferrujados e com vazamentos apareceram em diferentes pontos do litoral. Muita gente apresentou sintomas de contaminação por radiação e houve 300 mortes.
Quem conta é Ahmedou Ould-Abdallah, enviado da ONU à Somália: "Alguém está jogando lixo atómico no litoral da Somália. E chumbo e metais pesados, cádmio, mercúrio, encontram-se praticamente todos." Parte do que se pode rastrear leva directamente a hospitais e indústrias europeias que, ao que tudo indica, entrega os resíduos tóxicos à Máfia, que se encarrega de "descarrega-los" e cobra barato. Quando perguntei a Ould-Abdallah o que os governos europeus estariam fazendo para combater esse "negócio", ele suspirou: "Nada. Não há nem descontaminação, nem compensação nem prevenção".
Ao mesmo tempo, outros navios europeus vivem de pilhar os mares da Somália, atacando uma das suas principais riquezas: pescado. A Europa já destruiu seus stocks naturais de pescado pela super-exploração e, agora está super-explorando os mares da Somália. A cada ano, saem de lá mais de 300 milhões de Atum, camarão e lagosta; são roubados anualmente, por pesqueiros ilegais. Os pescadores locais tradicionais passam fome.
Mohammed Hussein, pescador que vive em Marka, cidade a 100 Kilómetros ao sul de Mogadishu, declarou à Agência Reuters: "Se nada for feito, acabarão com todo o pescado de todo o litoral da Somália".
Esse é o contexto do qual nasceram os "piratas" somalianos. São pescadores somalianos, que capturam barcos, como tentativa de assustar e dissuadir os grandes pesqueiros; ou, pelo menos como meio de extrair deles alguma espécie de compensação.
Os somalianos chamam-se "Guarda Costeira Voluntária da Somália".. A maioria dos somalianos os conhecem sob essa designação. [Matéria importante sobre isso, em The Armada is not a solution".] Pesquisa divulgada pelo site somaliano independente WardheerNews informa que 70% dos somalianos aprovam firmemente a pirataria como forma de defesa nacional".
Claro que nada justifica a prática de fazer reféns. Claro, também, que há gangsters misturados nessa luta - por exemplo, os que assaltaram os carregamentos de comida do World Food Programme. Mas em entrevista por telefone, um dos lideres dos piratas, Segule Ali disse: "Não somos bandidos do mar. Bandidos do mar são os pesqueiros clandestinos que saqueiam nosso peixe." William Scott entenderia perfeitamente.
Porque os europeus supõem que os somalianos deveriam deixer-se matar de fome passivamente pelas praias, afogados no lixo tóxico europeu, e assistir passivamente os pesqueiros europeus (entre outros) que pescam o peixe que, depois, os europeus comem elegantemente nos restaurantes de Londres, Paris ou Roma? A Europa nada fez, por muito tempo. Mas quando alguns pescadores reagiram e intrometeram-se no caminho pelo qual passa 20% do petróleo do mundo... imediatamente a Europa despachou para lá os seus navios de guerra.
A história da guerra contra a pirataria em 2009 está muito mais claramente narrada por outro pirata, que viveu e morreu no século 4 aC. Foi preso e levado à presença de Alexandre, o Grande, que lhe perguntou "o que pretendia, fazendo-se de senhor dos mares." O pirata riu e respondeu: "O mesmo que você, fazendo-se senhor das terras; mas, porque meu navio é pequeno, sou chamado ladrão; e você, que comanda uma grande frota, é chamado de imperador. "Hoje, outra vez, a grande frota europeia lança-se ao mar, rumo à Somália - mas... quem é o ladrão?"
Recebido por email.
Não vos parece (diz ele, convicto de que alguém lê o seu pobre blogue) que todos estamos excessiva e confiantemente dependentes da energia eléctrica? A pensar muito por baixo, por exemplo, o que seria deste blogue num possível day after complete shut down?
Ainda agora, na RTP, em entrevista com Judite de Sousa (a, para mim, assustadora Judite de Sousa).
"Com a mesma melancolia com que recordo todos aqueles (amigos, etc) que foram desaparecendo.", respondeu o senhor.
Certa vez, há cerca de dez anos, respondi a uma amiga, já não sei a propósito de quê, que gostaria de ser recordado com pena. Em tempo algum me compararei a Manuel de Oliveira, mas, ao ouvi-lo dizer estas palavras, um sentimento de alegria e, confesso, de triunfo, me percorreu as veias e a alma. Era exactamente aquilo que eu queria dizer quando respondi àquela amiga. A sua reacção, no entanto, na altura, deixou-me a modos que traumatizado (daí lembrar-me...). "PENA!!! Pena é um sentimento horrível!!!" Mais coisa menos coisa.
Com a sensação imediata de ter sido incompreendido, fiquei, ao mesmo tempo, e apesar disso, a pensar até que ponto ela não teria razão, a tentar perceber se realmente não seria terrível aquele meu almejo. Com a agravante de que a dita pareceu perder-me o respeito, sendo, ainda por cima, atraente, com todo o peso que isso traz ao ego masculino.
Não sou nada de cantar vitória, de esfregar o erro do adversário nas suas fuças, mas, bolas!, eu sabia que tinha razão! Não era é lá muito confiante...
À parte: ou a Sr.ª Judite de Sousa, na sua gentileza e cortesia, vociferava a entrevista por demonstração de atenção para com a (possível) surdez do entrevistado, ou, então, ela própria tem dificuldade em ouvir a sua própria voz; aquilo já me estava a causar espécie e a meter pena (pena!); será que as suas entrevistas são feitas, por inexistência de outro espaço, em estúdios contíguos a deficientemente isolados outros de gravação de Trash Metal?!
A revolta do post anterior (mais pelo desrespeito que foi receber uma convocatória em cima da hora para uma reunião de classificadores, sem se querer saber se há outros compromissos já marcados) transformou-se em algum sentimento de culpa quando, finda a reunião de classificadores, e já na fila para receber os malditos envelopes com as provas a corrigir... err... classificar, me dizem que sou suplente. Apenas entrarei em campo por impedimento ou lesão de algum titular.
Explico a culpa: não é bonito estar rodeado de pessoas que estão a levantar trabalho extra e que não se sabe muito bem para que serve e sermos aquele que, em princípio, não vai ter esse trabalho. Mais quando a colega e amiga que esteve todo aquele tempo connosco, e que vive em Portalegre, e que viaja todas as semanas dali para Algés, e que tem três flhos pequenos, recebeu trabalho e nós não.
Disponibilizei-me para ajudar, mas ainda assim.
É claro que me sinto aliviado por não ter cinquenta provas com critérios de correcção kafkianos à minha responsabilidade, não pensem que sou assim tão santinho.
Estou profundamente agradecido pelo reconhecimento de competências com que hoje fui agraciado. Lisonjeia-me a concessão de tão nobre tarefa. Leva-la-ei a cabo com brio, esmero e dupla dedicação. Será gracioso o meu trabalho. Basta-me o privilégio como recompensa.
Vou ser classificador de Provas de Aferição.
Nem tudo é irónico.
"...entraram no quarto três médicos. Já tinha notado que os médicos que falham na prática da medicina têm a tendência para procurar a companhia e o auxílio de outros em conferências médicas. Um médico incapaz de nos tirar competentemente o apêndice recomendar-nos-á um médico que será capaz de nos tirar as amígdalas com sucesso. Estes três eram desses."
Hemingway, em O Adeus às Armas
Há esperança. O médico, com quem não simpatizei, e que no fim da consulta me deixou desconfiado com um "...você agora é que sabe se quer ser operado...", não chamou ninguém para conferenciar sobre a minha problemática nasal.
"É apenas a tentar explicá-la aos outros que compreendemos se a ideia que temos na mente é justa ou pelo menos se podia ser formulada."
Umberto Eco
"Para um autêntico escritor, cada livro deve ser um novo começo em que se procura algo que está para além do seu alcance. Ele deve sempre procurar algo que nunca foi feito, ou que os outros tentaram e falharam. Então, uma vez por outra, e se tiver sorte, ele será bem sucedido."
Hemingway
Vejo, na televisão, por acaso de zapping, aquelas que foram consideradas as dez (maiores?) gaffes de Barack Obama nos seus primeiros cem dias de governação. A não ser no caso em que compara a sua performance no bowling a um desempenho paralímpico (ainda assim, inocente e espontânea comparação, do meu ponto de vista), onde estão as gaffes? Verifiquem e contestem-me. Eu apenas vejo espontaneidade e humanidade. Ah, do outro lado vejo luta por audiências.
(o título parece aquilo dos mafagafinhos)
Mais do que ninguém, eu não sou imune à ingenuidade, mas, da entrevista que ainda agora acabou na RTP1 concluo pelo menos uma coisa. Que há um (grande) ponto a favor de José Sócrates: o saber dialogar honestamente. Judite de Sousa ainda não percebeu (ou não lhe interessa perceber) que o valor do diálogo não está em descobrir de que lado está a razão nem no perseguir de uma vitória. José Alberto Carvalho parece já ter dado conta.
Entrar numa aula partindo do princípio de que os alunos se vão portar bem (e que relativo é o conceito de bom comportamento...) é, no mínimo, uma ingenuidade. Na minha opinião, é partir para a derrota. É como sair de manhã para o trabalho tendo que, obrigatoriamente, percorrer uma estrada habitualmente congestionada estando convencidos de que, hoje sim, hoje é que vai ser, não vai haver filas nem stresse, vai ser um aliviado ver se te avias. O que é que acontece? À primeira contrariedade perdemos a paciência. Numa aula é igual. Até em turmas "boas" os imprevisttos acontecem e é bom estar a contar com eles, encará-los como normais, como previstos. Ninguém tem prazer, é claro, em alunos que constantemente perturbam e não deixam que as coisas fluam, mas tenho aprendido que o stresse é menor quando se tem em conta a possibilidade (quase sempre a certeza) de que algo interromperá o "normal" curso das coisas.
Já achar que crianças, para mais em grupo, irão estar uma manhã inteira com atenção sossegada é muito mais do que ingenuidade. É ignorância. É não conhecê-las. É, se calhar, não admirá-las o suficiente.
Isto não quer dizer que a minha paciência não tem limites.
Aconteceu-me hoje uma coisa que considero curiosa. Uma colega que faltou deixou instruções expressas para que, na minha hora de substituição, fosse eu a substituí-la. Perguntando-me porquê, encarei a coisa como um elogio e fiz-lhe a vontade.
Não leccionamos a mesma disciplina.
P.S.: parece que o meu ego é bastante massajável. Uma fraqueza, suponho.
Uma coisa me espanta: que este blogue se actualize mais quando menos tempo tenho.
As notícias dizem que há crianças das escolas do concelho de Sintra que passam fome e que muitas vezes é a escola que as alimenta. A Sr.ª Ministra da Educação diz que há alarmismo (nas notícias). Não faço ideia se já deu aulas a sério. Se já o fez a crianças necessitadas. Se tem sequer ideia real do que é o ensino. Se já lhe calhou dez meninos (não exagero) declararem a meio de aula de fim de tarde que não tinham almoçado. Se a maior parte dos mesmos lhe disse, quando enviados ao bar da escola, que não tinham dinheiro. Já? A mim já, Sr.ª Ministra! Onde? No concelho de Sintra! Quando? Há menos de um ano! No Cacém, Sr.ª Ministra! E o Cacém é grande e pobre e é apenas uma pequena parte do concelho de Sintra!
Não é um privilégio ter tido alunos assim, com fome, alguns deles bons alunos apesar de tudo, mas serve, agora, para lhe dizer que não há alarmismo, há, antes, uma realidade alarmante! E alarmes existem para que se tomem medidas!
"alforreca: uma dançarina. para beijinhos usa ardores. para cor optou por transparência. aprecia boleiar-se na correnteza.
aranha: em complicada teia, bicha muita simples. contentada com qualquer refeição avindoura, seja um mosquito distraído, um grão de pólen, ou o grandioso infinito. contém inesgotável reservatório de saliva."
Ondjaki
A propósito do que se teria passado na sala G2 do pavilhão de Educação Física na sexta-feira de manhã, a saber, entre outras coisas, um pequeno sketch sobre a Criação do mundo em sete sete dias (sim, sete, ao sétimo foi criado o descanso) conversava-se na sala de professores. Um deles comenta "...não sei como podem deixar dizer uma coisa dessas numa escola..." (qualquer coisa assim). Um outro, que nem sempre sabe estar calado (raramente), e que trabalhava nas imediações, devolve "É a liberdade, amigo...", num tom que pretendia ser convincente, mas amistoso e brincalhão. A reacção foi de surpresa. E, parece-me, de alguma animosidade. Como se eu, sim eu, quem havia de ser o desbocado, não tivesse o direito de contrapor a minha opinião, ainda mais sobre assunto tão ignóbil para mentes académicas. Nem um nem outro nos alongámos muito na discussão (conversa), sabendo tacitamente, talvez por experiência, que as conclusões permaneceriam as mesmas e as de cada um com cada qual. Talvez o tom ou a oportunidade não tenham sido os melhores. A sensação com que fiquei de que possa ter ofendido não me agrada (nunca me agrada), tratando-se, ainda por cima, de alguém divertido e simpático. Por outro lado, apenas contrapus a minha opinião, o que, em si só, é uma liberdade não passível de causar ofensa. Assim me parece. Custa-me aceitar este agir e falar pensando que todos à volta dificilmente terão opinião diferente. Que todos serão, à partida, mainstream. Ainda assim, talvez devesse ter ficado calado. De bom, fiquei a saber que há mais na escola com a minha convicção. "Mas amigos na mesma...", tentei apaziguar. "Claro!", respondeu ele. E eu sei, também por experiência, que de grandes discussões e divergências podem sair ainda maiores amigos.
A
"abelha: de tanto ouvir zumbido ficou surda. vive de cheirar flores e praticar voolêncios. também sabe voar para trás. no picar residem seus derradeiros orgasmos."
Ondjaki, bichos convidados (de a a z)
É bom quando numa escola fazem livre parte do programa de final de período uma "palestra" com surfistas cristãos e um grupo de jovens da iblav (Igreja Baptista de Linda-a-Velha) em concerto ao ar livre. Com direito a vista de mar. Mérito da professora de EMRE. Rolling ruling school!
Manifesto
Busco a poesia no âmago da vida
ou nas esquinas
ou nas curvas e
contracurvas.
Em todo o lado há luz
ou sombras. E tudo
é poesia.
Não tenho escolas,
nem gurus.
A linha da poesia é a linha
da vida.
João Melo, Auto-retrato, Edição Frente e Verso, revista Visão
"O professor é mais assim como um pai..."
(Uma aluna de 10 anos enquanto assistiamos ao "Tour Agarra a Vida" na escola; o "Tour" é uma iniciativa do IPJ: qualquer coisa como desportos radicais em vez de drogas; os melhores do street skate, skateboard e bmx lá estiveram a fazer uma bonita demonstração; fotos amanhã. My school rules! Hum... rolls...?)
Pergunto-me se o bom humor não será sempre uma espécie de inteligência da melancolia.
(O título é Ondjaki inspired.)
Para formiga ser, quer-se...
chão-cheiro.
trajecto formigabiríntico.
granulação com patas.
tapete para asas caintes.
aburacações várias
para laboriosas existenciações.
avulsas corridinhas enternecendo mundos
e um medonho desconhecimento para egos...
in Há Prendisajens com o Xão,
(O SEGREDO HÚMIDO DA LESMA & OUTRAS DESCOISAS), de Ondjaki,
Edição Frente e Verso, revista Visão.
Às quintas, com a Visão. Ainda não estão convencidos?
Às vezes,
penso
que falo demasiado,
que intervenho demasiado,
que opino demasiado.
Às vezes tenho razão.
Às vezes,
penso
que falas de menos,
que intervens de menos,
que opinas de menos.
Às vezes tenho razão.
Às vezes falo demais.
Às vezes invejas demais.
(Chaval... esta não é contigo.)
Curioso não é alguém ter trabalhado no mesmo sítio que nós.
Curioso não é alguém ter a mesma profissão.
Curioso não é alguém ter a mesma formação.
Curioso não é alguém ter o mesmo nome que nós.
Curioso é alguém ser isto tudo ao mesmo tempo e, ainda por cima, um grande amigo!
(Há diferenças: eu, de cineasta não tenho nada e o grande Mário tem tudo.)
"Disseram: «aquece-se o forno com uma camada de garbulha e achas delgadinhas. des q'istá a arder canto mais grossas é, mais isqueinta a pedra. Peneira-se a farinha na masseira, escalda-se com auga queinte temperada com sal, meixe-se com a imbuladeira. depois deita-se o fremento e a mistura de centeio e continua-se a meixer com a imbuladeira ou com as mãos. arruma-se a massa a um canto da masseira, faz-se uma cruz e deixa-se lebedar até ganhar lanhos por aquela cruz. barre-se o forno com o barredouro e fazem-se primeiro uns bolitos. depois, faz-se as broas na gamela de apadejar e bota-se ao forno na pá das brasas»."
do poema Primeiras Escavações, de Mário Cláudio, in Edição Frente e Verso, revista Visão.
(Orgulho e baba do professor; antes de julgarem a qualidade sintáctica do texto da primeira imagem, saibam que a menina, Ucraniana, há seis meses não dizia nem percebia palavra de Português)
Descobri que a burocracia, tema recorrente neste blogue, nesta vida e nesta cabeça, no fundo existe para ajudar. Quando é muita cansa, não é? Irrita, certo? Stressa, verdade? Pois! É para que a ignoremos. Se a ignorarmos, o caminho encurta, um molho de tarefas tornam-se desnecessárias. Err... e a vida complica-se... Bolas! Argument down with the flow... Então... parece que temos que resolver uma cestada de tarefas complicadas e aborrecidas, preencher, se necessário e as vezes que forem necessárias, os mesmos dados em papéis complicados e semelhantes para instituiçoes diferentes, correr abaixo e acima numa complicada agonia para... vejamos se acerto... a nossa vida... será isto?... não se complicar...
É isto! A BUROCRACIA é qualquer coisa como dizer "é melhor complicar já antes que a coisa se complique". Agora vou comer, que já me cansei.
(Ontem tive que debitar ou preencher dados pessoais semelhantes em cinco sítios diferentes, devido a um único acontecimento.)
Ah, pois é!
Quinta-feira, feira do livro. Aqui, no quiosque ao lado.
Livrinho a 50 cêntimos com a Visão (sem a Visão: a senhora é simpática e, a forretas, vende só o livro).
Edição Frente e Verso, das Publicações D. Quixote, Grupo Leya. Versos na frente, prosa no verso. Ou vice-prosa.
Esta semana, Maria Teresa Horta.
Frente: Só de Amor
Verso: Antologia de Contos
Imperativo, pá.
Compra,
Compre,
Compremos,
Comprai,
Comprem.
Cumpram. Às quintas.
Mas não regateiem. Parece mal.
Entro numa livraria só p'ra ver e vejo, em destaque, com looks up to date, um livro de Emílio Salgari, o autor que talvez mais tenha lido na adolescência.
Já em tempos tinha procurado saber, na net, sobre ele, sendo informado da desconsideração a que foi votado pela crítica: pelo que li, era, ou tinha sido considerado um escritor menor, o que me deixou desapontado, não pelo tempo dedicado à sua escrita e imaginação fantásticas, mas por achar que tal avaliação era injusta e descabida.
O livro que encontro agora revela, numa introdução, que afinal não é assim, dá a entender uma apreciação passada equivocada e consagra o autor como uma referência maior da literatura juvenil. Renascimento de Emílio Salgari, portanto!
Não comprei o livro. Os quinze euros não eram oportunos. Mas fiquei feliz por saber que não fui apenas eu que gostei das aventuras imaginadas pelo senhor italiano. Não comprei este e não tenho nem um, apesar de ter lido muitos. Eu sou da geração (ões?) beneficiada por Calouste Gulbenkian e pelas suas bibliotecas itinerantes, essa grande ideia! Com sete ou oito anos já lá ia every fortnight buscar adrenalina impressa.
Grande Calouste! Grande Salgari!
Lembro-me agora que o look Sandokan está na moda. Será por isso este renascimento?
Consequências desta avaliação manhosa que nos estão a querer enfiar ao jeito de endoscopia (porque a náusea é inevitável): desconfiança e comentários desdenhosos em face de iniciativas mais que naturais.
Pela nova lei de assistência parental. Seis meses de acompanhamento pós-natal. Possibilidade de prolongamento com redução de retribuição salarial. Entre dez a vinte dias para os papás terem tempo de limpar a baba do queixo.
Estou feliz! E não sou pai.