29.1.08

Sentido de humor, prático ou misericórdia? Ou tudo junto?

(Na correcção da ficha de avaliação sobre "Ulisses", de Maria Alberta Menéres)

- Stor...
- Diz...
- E se Ulisses desse a Tântalo a carne de ovelha negra que Circe lhe deu...?
- Se quisesse falar com ele era o que deveria fazer... Ah, queres dizer se lha desse para comer...?
- Sim, será que ele podia comê-la?
- Não sei, mas era uma boa tentativa para lhe matar a fome...
- (sorriso)

P.S.: este menino tem onze anos e anda mortinho por comprar "A Odisseia" e "A Ilíada", de Homero, à conta da leitura do referido "Ulisses"; como personagem coadjuvante tenho a irmã, que trabalha na Fnac; não devem tardar as aquisições clássicas. Já valeu a pena este ano lectivo!

Sem chantilly

Pergunto-me em que pares reais se inspiram os professores de Morangos com Açúcar.

26.1.08

Vénia

No dia dezassete assisti, afortunadamente, no Music Box, ao espectacular concerto dos Pontos Negros magnificamente escancarado por Tiago Guillul e companhia.
Vi, e li, com alegria, há não mais de meia hora, as páginas a eles dedicadas no Ipsílon do Público.
Embora nada tenha dito aqui até agora sobre o assunto (há sempre o receio, o meu receio, de este blogue não ser suficientemente digno, digo-o sem ironias), tive vontade de o fazer logo naquela madrugada, assim que cheguei a casa.
Foi uma noite de várias felicidades. A felicidade de ali poder estar, a felicidade pela felicidade de eles ali poderem estar, a felicidade de os ver felizes, a felicidade de os ouvir e de gostar, a felicidade, a maior, de rever amigos que há muito não via. Vibrante, caloroso, aconchegante rock. Perdoem-me se não vos faço justiça.

Avaliações

Mal estaria o antigo aprendiz ou marçano se doutr'arte fosse o seu mais tarde gestor ou avaliador.
Nem remendos de pneu se encomendam a alfaiates, nem nas costuras de véu são chutados os remates.

23.1.08

Quando prestar contas, afinal de contas, até nem é mau

Considero um dos problemas maiores da avaliação de professores o umbiguismo. Do avaliado ao avaliador a coisa perverteu-se - ou está a perverter-se - de tal modo que a preocupação maior é o facto de se ter que prestar contas e, não tanto, como deveria ser, a focalização na tarefa que se tem em mãos e na qualidade da sua execução. Isto faz com que o avaliador não incida o seu óculo no objecto avaliado com a lucidez necessária, já que o receio do avaliador que lhe ascende lhe tolda a objectividade e faz com que o seu principal objectivo seja cumprir, agradar, apresentar resultados não passíveis de represálias.
Os próprios orgãos de soberania dão por vezes a impressão de ter como primordial objectivo a satisfação da opinião pública e, ou, da voracidade dos media, seus indirectos avaliadores. A excessiva necessidade de justificação perante a inquisição jornalística versus possibilidade de assunção de erros e respectiva correcção é prova disso. Digo eu.

16.1.08

Cessação tabágica

A expressão não é minha, é estranha e considero-a um pouco estúpida por ser tão hermética na sua compreensibilidade (quase tanto como este palavrão). Mais por ter sido usada numa notícia de um jornal nacional informativa da existência de uma consulta para ajudar pessoas a deixar de fumar. Melhor, a cessar de fumar. Consulta de cessação tabágica, portanto. Reconheço a sua economia, o facto de ser conceptualizante (mais um), mas penso-a de difícil compreensão para as massas.
Chegou-me às mãos reimpressa num manual escolar e utilizei o texto hospedeiro, a par com um outro muito mais criativo, divertido e interessante, para debater com os ganapos as vantagens da lei anti-fumo em espaços públicos fechados. Primeiro a sua opinião, depois os textos, como quase sempre. É óbvio que tive que descodificar a locução quase alienígena, exercício que, numa aula de Língua Portuguesa, até tem a sua piada e vantagens que talvez permaneçam na cabecinha dos meninos. Mas numa notícia para massas, repito, ainda por cima informativa de uma utilidade pública, é, no mínimo, estranha.
Já que falo do assunto aproveito para dizer que conheço duas pessoas que estão a tentar deixar de fumar desde que a nova lei saiu, embora uma delas diga que a cara nada tem a ver com a careta.
Também me apetece dizer que, com tantos guetos que existem, agora há um que tem a sua piada (não que outros não tenham conseguido a sua): o gueto dos fumadores. Esta manhã tive que esconder um sorriso, interior e exterior, que, embora não malicioso e até com uma certa pena, se divertiu ao ver as nove ou dez pessoas que se aglomeravam à porta do seu local de trabalho para matar o vício. É cessar, é cessar.

15.1.08

Este foi ainda um Natal organizado

Este foi ainda um Natal organizado. Com muita gente, felizmente, muita gente da família e por isso mais feliz, mas organizado. Este Natal passei-o num país organizado, especialmente organizado, ou conhecido por isso: a Suiça. Este Natal passei-o em Genebra, com fuga de uma manhã até Nyon, a quinze minutos de comboio. Neste Natal recebi presentes. Embrulhados, enfeitados, etiquetados. Organizados. Neste Natal comprei e recebi produtos da Hennes & Mauritz, empresa organizada, incrivel, impecável, justamente organizada. Confiram no seu organizado sítio. Neste Natal senti o frio e a humidade genebrinas (?), o primeiro graduado nos seus graus, escalada na sua alta percentagem a segunda. A seu tempo os dois. Organizados. Neste Natal recebi um Moleskine. Se não para organizar, pelo menos para compilar. Ideias. Whatever. Se os houver. O que houver. Neste Natal escrevi no Moleskine. Fiz um esforço. Mas não sobre o Natal. Foi no dia vinte e sete, já quase de talheres na mão para o jantar, um dos fantásticos preparados pelo meu fantástico cunhado, além disso cozinheiro. De profissão e de coração. E assim foi:
"Aqui, perto da casa de uma das minhas irmãs, existe um edifício, de construção antiga, onde, até há não muito tempo, residiam "Okupas" (ou um derivado, acrescento agora). Nunca o vi por dentro, mas a sua decoração exterior, na altura, era interessante.
Soube que por altura de uma reunião do G8 nesta cidade houve distúrbios. Soube que faziam parte dos "arruaceiros", que destruiram carros e outras propriedades alheias, os, ou alguns dos habitantes deste prédio, no mínimo, pitoresco.
O rigor suiço, depois desta aventura, se os tolerou até aí, a eles que não pagavam renda, nem impostos sobre a "sua" habitação, a eles que se limitaram a exigir como direito a ocupação de um prédio desocupado, expulsou-os. Do prédio.
Ocorre-me dizer, a propósito, que os anarquistas e as suas ideias só são possíveis em sociedades organizadas (e parece-me que dizer sociedade organizada é quase uma redundância). Assim não fosse, por que escolheriam a Suiça, e em particular Genebra, para viver à sua maneira (provavelmente porque aí nasceram)? Ocorre-me verificar que, se de repente todos, mesmo todos, decidissem viver desse modo tão à vontade, a "organização" anárquica, por estranho que pareça, sucumbiria. Dito de outro modo, a excessiva desorganização que tal facto provocaria, levaria a que alguém tivesse que tomar a iniciativa de organizar a desorganização da agora, e só agora, verdadeira anarquia.
A anarquia é uma ideia e um sistema infantil. Comparo-a aos filhos que reclamam para si independência e liberdade, mas que vivem à conta dos pais e na tranquilidade do lar, "irresponsavelmente". A anarquia só sobrevive debaixo das asas da sociedade mãe.
Pergunto-me se o anarquista não ficaria à beira de um ataque de nervos se os donos do supermercado, da padaria ou das bombas de gasolina do seu bairro se convertessem ao seu modo de vida.
A piada estaria em ouvir um deles dizer, quando todos fizessemos o que nos desse na real gana, qualquer coisa deste género:
- Mau, pessoal, assim não dá! Temos que nos organizar!!"